domingo, 23 de maio de 2010

AS MINHAS MEMÓRIAS - Cronicas da vida militar - 1

O navio Carvalho Araújo, que me "transportou" para a Guiné
MEMÓRIAS DA VIDA MILITAR

A vida militar, roubou-me anos à vida. Não só a mim, como a muitos milhares de jovens, que como eu passaram pela guerra de África



Entendo descrever aqui alguns episódios, uns tristes outros mais alegres. Infelizmente no nosso País, poucos são aqueles que pertencem ao poder, que fazem questão de lembrar essa época, preferindo recordar episódios filmados da guerra do Vietname.



E isso é demonstrado pela forma como o Estado, desprezou tantos, daqueles que de lá vieram, com problemas do foro psicológico, o chamado stress pós traumático de guerra. Veja-se muitos dos nossos médicos, quando lhes falamos dos nossos problemas, aliados às vivências passadas no interior das antigas colónias. A grande parte, parece não ligarem, ou então ignoram pura e simplesmente. Mas, não são apenas os ex-militares que ainda hoje sofrem de pesadelos constantes que lhes alteram a forma de viver. Igualmente as suas esposas, muitas delas, continuam a carregar com o pesadelo da guerra.



As nossas escolas? Ignoram pura e simplesmente essa faceta triste da nossa história. Os nossos jovens, não “ligam” a essas experiências pelas quais, o “cotas” passaram. Quando deveria ser a escola, um dos meios colocados á disposição dos jovens para lhes falar destes tempos, que ninguém quer que se repitam.



Os meios de comunicação social, principalmente a televisão, encorajam a nossa juventude, a incorporarem-se no exército. Muitas vezes à falta de empregos. São as fileiras, a única solução para aqueles e aquelas que desejam um emprego. Depois de lá estarem, vêm as ofertas e os convites para “missões de paz” no estrangeiro. A troco de muitos euros, os nossos jovens partem, muitas vezes sem a certeza do regresso.



Assim, Portugal, continua a ter um papel bélico, não comparável ao que teve nos tempos da ditadura, mas sim, com características próprias e sob a ideia da defesa da paz.



Enfim, os que vão para essas guerras, vão de forma voluntária e oxalá as suas motivações sejam conseguidas, que vão e regressem com vida e saúde, é só o que poderemos desejar.



Tentarei descrever aqui, diversos episódios da minha vida militar. Não o faço por vaidade ou orgulho pessoal. Faço-o para que, não fiquem em branco as páginas relacionadas como alguns anos da minha vida, da minha juventude. Ao mesmo tempo darei assim a conhecer, principalmente aos mais novos, uma parte daquilo que lhes deveria ser transmitido pelos sucessivos governos do período pós-25 de Abril de 1974

domingo, 11 de abril de 2010

AS MINHAS MEMÓRIAS - Os banhos de 29 em Sines

OS BANHOS DE 29 EM SINES


Ainda hoje, ao verificar as iniciativas que muitas autarquias levam a efeito, para relembrar datas festivas já em desuso e até no esquecimento, recordo os Banhos de 29. Que data, sempre aguardada com muito entusiasmo, por todos , tanto aqueles com algumas condições económicas favoráveis, como aqueles que mal ganhavam para o seu sustento, e estes, a maioria.
Os banhos de 29, eram a 29 de Agosto. Nesse dia , muitas pessoas se dirigiam, bem cedo, das herdades, pelos caminhos empoeirados, para a estação dos caminhos de ferro. Alguns percorriam 10 e mais quilómetros, carregando cestos, com a galinha “acerejada”, o garrafão vinho e tudo mais que confortasse o estômago, naquele dia de festa.
O comboio que nos transportava a Sines, era o comboio das 8. Partia da Funcheira e chegava à estação de Alvalade às 8 horas da manhã. Dai o ser conhecido por “comboio das 8”. Nesse dia, fosse domingo ou dia de semana, grande parte das pessoas da zona fazia a viagem, de Alvalade a Sines, para o “banho de 29” É que, nesse dia o banho era considerado “banho santo” Aliás em muitas localidades do litoral se festeja esta data da mesma forma, embora com nomes diferentes. Por exemplo, no Algarve, em Mantarrota, neste dia faz-se grande festa , que é chamada o “S. João da Degola”.
Pois no dia 29 de Agosto de cada ano, a composição ferroviária que nos dias normais era constituída por três carruagens, a de 1ª (pouco ou nada utilizada) a de 2ª e a de 3ª classe, era aumentada para mais 8 ou dez carruagens, originando uma sobrecarga para a ronceira locomotiva a carvão, que se via e desejava para efectuar a subida do “ monte” da Mal Assentada, situado entre Alvalade e Ermidas. Mas enfim, lá chegava à estação de Ermidas, onde a locomotiva teria de ser abastecida de agua, de efectuar varias manobras, para poder seguir na direcção de Sines, continuando a recolher passageiros e banhistas oriundos de Abela, de S. Bartolomeu da Serra, de Santiago do Cacém. Chegada a composição a Sines era digno de se ver, a quantidade de pessoas, homens, mulheres, crianças, que carregando os farnéis, se dirigiam à praia.
Ali chegados, estendiam-se cobertores na areia, e logo de seguida, os homens com as calças arregaçadas, vendo-se os atilhos das ceroulas, as mulheres segurando as saias (fatos de banho eram luxo), embora na praia se pudessem alugar, mas só alguns o podia fazer.
Minha mãe pagava a um “banhista” – homens que a troco de umas moedas, levavam as crianças a mergulhar. E então havia choro, gritaria, enquanto nós crianças éramos mergulhados nas aguas. Mas ai de quem viesse a Sines e não molhasse o corpo no dia 29 de Agosto.
Depois o almoço e cada um apresentava os géneros alimentícios que as suas posses lhe permitiam, chouriço, linguiça, toicinho, uma ou outra galinha “acerejada” ( assada), o bom pão caseiro, e naturalmente o vinho.
Passava-se a tarde. Estendidos na areia, a dormir, enquanto nos altifalantes espalhados pela praia, se transmitiam discos pedidos. E ouvia-se então : “ vamos transmitir o fado barco negro, interpretado por Amália Rodrigues, a pedido duma menina de Alvalade que dedica a um certo rapaz das Ermidas” Claro, que nestes tempos nada mais se poderia dizer, pois o segredo era alma do negócio.
Findo dia e depois de se terem comido as “línguas de sogra” que se vendiam pela praia, tudo se dirigia novamente para o comboio. Era o regresso a casa, levando consigo as mais gratas recordações de um dia excepcional, que logo ali, nesse momento, se desejava ser repetido no ano seguinte.




sexta-feira, 19 de março de 2010

AS MINHAS MEMÓRIAS Os figos da India

OS FIGOS DA ÍNDIA


Estava eu a frequentar a escola primária em Alvalade e residindo na herdade, distante cinco quilómetros, fazia diariamente o percurso, isto é, de manhã, 5 quilómetros da herdade para Alvalade e à tarde outros 5 km da escola para a herdade.

Este percurso era feito caminhando sozinho, pela berma da via férrea do Vale do Sado, ainda hoje chamada Linha do Sado. Nesses tempos era permitido circular pelas bermas da via férrea. Hoje isso é impossível, pois a mesma encontra-se electrificada e é vedado aos transeuntes circularem junto à via. Até porque hoje os comboios já não são a carvão, nem sequer a diesel. Só o Alfa, produz á sua passagem uma autentica tempestade de vento, que não perdoaria a quem, nesses tempos circular pelas bermas da linha. É o progresso!

Pois numa das ocasiões em que, após as aulas, ao fim do dia, me dirigia para o “monte”, deveria ter à volta de 8 anos de idade, passei por um tipo de cactos, ainda hoje existentes nos campos, que produzem os chamados “figos da índia”. Já os tinha comido, eram e são bastante deliciosos, mas para os colher são precisos muitos cuidados, pois os mesmos produzem pelos, pontiagudos, muito finos, que se entranham na pele com imensa facilidade.

Eu, desconhecia esse pormenor, pois nunca ninguém me havia alertado para o facto. Já os tinha comido, oferecidos por alguém, que não me alertou para isso. E aqueles que ali estavam ao meu alcance, eram grandes, e apetitosos. E, como tal, não estive com mais delongas e toca de jogar as mãos e encher a sacola de figos da índia. Depois continuei o meu caminho por entre as arvores e o mato, até chegar ao “monte”.

Ali chegado, ao mostrar a minha mãe os apetitosos figos da índia, já mal podia suportar as dores nas mãos, devido aos inúmeros pelos dos figos espalhados por elas. Minha mãe, claro zangou-se e tratou de me colocar as mãos num recipiente com azeite virgem e depois, enfiar-me nas mãos umas meias, das que se usam nos pés. E passei a noite e o dia seguinte (tive que faltar à escola), até que a praga desaparecesse. Ainda hoje, tenho na ideia, o sofrimento de que fui alvo com os “apetitosos” figos da índia.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

AS MINHAS MEMÓRIAS do Monte ... para a cidade

Do Monte para …. A cidade!

Terminada que foi a instrução primária, depois de feito o exame da 4ª classe e depois o de admissão - penso que assim se chamava porque após ele, seria possível a admissão no ensino secundário- ao qual, naqueles tempos, nem todos tinham acesso. Nessa altura já minha irmã , mais velha três anos, se encontrava a estudar na Escola Industrial e Comercial de Beja ( hoje Escola Secundária D. Manuel I).

O exame de admissão foi feito em Santiago do Cacém, e para a sua realização era necessária a deslocação dos alunose familiares, bem como professores, para a sede de concelho. Lembro-me que ficámos hospedados numa casa particular, hoje inexistente, que se situava no inicio da rua que conduz ao antigo hospital Conde de Bracial. O próprio exame foi feito na escola primária existente nessa mesma rua e onde depois do 25 de Abril de 1974, existiu a sede do Partido Comunista Português.

Vieram depois as férias grandes e os preparativos para a minha ida para a grande cidade. Era esta uma das grandes mudanças da minha vida. Outras se lhe seguiram, que a seu tempo, se tiver vida, saúde e vontade de escrever, virão a lume.

As férias grandes foram, como sempre passadas no monte. Com os meus 9- 10 anos, naturalmente que as ocupações eram ainda as dum adolescente. Passeava pelas estradas de bicicleta a pedal, passava muito do meu tempo junto dos trabalhadores agrícolas , principalmente os que desenvolviam a sua actividade na lavra de milho existente na várzea dos Almargens e cuja exploração estava a cargo da IRPAL – Industrias Reunidas de Produtos para Alimentação, empresa cuja sede era em Sacavém. Lembro-me bem do grupo de gente jovem, ma maior parte mais velhos que eu, a minha irmã, a Teresa, que hoje vive em Lisboa, o Caixinha ( com quem hoje relembrei esses tempos) e outros mais que a memória não permite que fale neles. E lembrar, os banhos na ribeira ( ali chamada de S. Romão) mas que não é outra senão o Rio Sado. Recordo-me de, nessa altura, com a juventude própria das nossas idades, todos nós e outros mais, resolvemos ir nadar na ribeira. E na falta dos fatos de banho, as roupas interiores , serviram para evitar o nudismo. Foi grande a brincadeira no pego das Fontainhas. Eu, com o agravante de ter tido havia algum tempo uma grave doença que me afectou os pulmões. Mas isso não me impediu de entrar na “ramboia”

O pior foi à noite no regresso ao monte. Alguém teria ido contar a minha mãe, o espectáculo dos banhos públicos, onde eu, a minha irmã, e o restante grupo andamos a divertir-nos. Claro, que houve tareia, e que tareia!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

ASMINHAS MEMORIAS - O Cante das Janeiras


   

AS TRADIÇÕES LIGADAS AO FIM DO ANO
O CANTE DAS JANEIRAS

Depois vinha o fim de ano e o dia de ano novo, era igualmente nalguns lares  comemorado com algumas iguarias alimentares, quando as havia. Uma tradição existia e que muitas vezes concorria para um almoço ou jantar melhorado; O CANTAR DAS JANEIRAS. Hoje fala-se muito no cante dos Reis, mas segundo as minhas memórias, na nossa região, cantavam-se os Reis, mas a tradição mais importante eram as Janeiras, até porque antecedia um dia de festa (dia de Ano Novo) havendo assim a hipótese de “rancho melhorado” no dia do novo ano. E, as Janeiras eram cantadas na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro. Grupos de homens e mulheres, protegidos do frio e da chuva, com xailes e mantas, percorriam as herdades , e aí chegados dirigiam-se à casa do lavrador ( aí sempre levavam a esmola - às vezes!)
Batiam à e perguntavam: “ Quer que cante ou que reze?”
Isto porque por vezes alguém na família podia estar doente, ou a família enlutada. Geralmente, de dentro, mandava-se cantar. E logo o “ponto” cantava:

“Oh senhora lavradora
Raminho de salsa crua

Aos pés da sua cama
Nasce o sol e põe-se a lua”

Esta casa está caiada
Esta rua está varrida
Moradores que nela moram
Deus lhes dê anos de vida

Esta casa está caiada
Por dentro, por fora não
Moradores que nela moram
Deus lhes dê a salvação

Esta casa cheira a rosas
Por dentro estão as roseiras
Onde há meninas bonitas
Onde há meninas solteiras

Esta rua está caiada
Esta rua está varrida
A mulher que é asseada
Pela rua é conhecida

Esta rua está caiada
Quem seria a caiadeira
Foi a mãe do meu amor
Com raminho de oliveira

E, quando na família havia alguém mais jovem, cantava-se:

Oh senhores lavradores
Deixem-se estar que estão bem
Mandem-nos dar a esmola
Pela flor que aí tem”

E logo depois, a porta se entreabria e se perguntava quem era o do “saco”. E lá ia a esmola - laranjas, toucinho, uma ou outra linguiça ou chouriço, pão e por vezes dinheiro.
Depois lá vinha o agradecimento, entoado pelas vozes melodiosas dos cantadores:


“Inda lhes canto mais esta
Em louvor de S. Mateus
A esmola que nos deram,
Seja por amor de Deus”


             Ou

Inda lhes canto mais esta
Em louvor de S., João
Deus lhes dê muitas venturas
Pela esmola que nos dão!

E o grupo lá desandava, muitas vezes debaixo de chuva ou enfrentando a geada, a caminho de outra herdade. Andavam-se por vezes mais de trinta quilómetros, dada a distância entre os montes, das herdades, inseridas no sistema de latifúndio do Alentejo.
Terminada a jornada, dividiam-se as ofertas pelo grupo e graças a elas, o almoço ou o jantar de ano novo, seria melhorado.

* Nota – As quadras incluídas no artigo, foram relembradas pelos utentes do Centro de Dia de Alvalade, que anualmente saem à rua não para cantar as janeiras, mas sim os Reis, na noite de 5 para 6 de Janeiro.



AS MINHAS MEMÓRIAS -Festas de Natal da infância

AS FESTAS DO NATAL NA MINHA INFÂNCIA



Gostaria, até porque estamos na quadra natalícia, de relembrar, como era o Natal da minha infância, bem como as datas a ele ligadas
O Natal da minha meninice, arrepia! E porquê? Porque vivia-se uma época de grande carestia, de muita fome e nada que se comparasse com aquilo que hoje se passa, em que apesar da crise, o consumismo continua a sobrepor-se a todas as situações de carência. Nesses tempos, a quadra natalícia era quase que ignorada, comparada com aquilo que hoje se passa. Amealhava-se uns cobres para, no dia de Natal se “estrear “ uma ou outra peça de vestuário. Outros, não se poderiam certamente dar a esses luxos. No dia de Natal, por vezes, quem vivia nas herdades, ia à capoeira, matava uma galinha ou um frango e o rancho era melhorado. Aliás, hoje é banal comer-se frango ou galinha, nos tempos antigos só se comiam em dias de festa, ou quando alguém estava doente. Doces? Que me lembre algumas famílias lá conseguiam uns ovos e faziam as fatias de ovos - pão em fatia, passado pela gema do ovo batido e colocado depois na frigideira. Seguidamente era polvilhado com açúcar, e era uma verdadeira delicia, acompanhado por café bem quente, feito na chocolateira de barro, na lareira. Na casa do lavrador, por vezes lá se faziam as filhoses, o que impregnava o ar, daquele cheiro característico a fritos.

Prendas no sapatinho???

Quando acontecia, nalgumas famílias, as crianças contentavam-se com duas ou três bolachas Maria, com uns figos secos ou umas bolotas numa “enfieira”. Noutras com algumas posses, apareciam as sombrinhas e os Pais Natal de chocolate. Geralmente nesse dia não se trabalhava nas herdades. Aliás as datas ligadas à religião eram, duma forma geral tidas em consideração pelos proprietários e lavradores, talvez por temor aos castigos divinos. Os trabalhadores, esses tinham que cumprir o feriado, embora não recebessem qualquer vencimento.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A DIVULGAÇÃO DA VILA DE ALVALADE MAIS POBRE

Ao ter conhecimento de que a partir de Janeiro de 2010, a página alvalade.info deixará de existir, não poderei deixar passar esse anuncio sem deixar aqui um profundo lamento por tal acontecimento, que empobrece ainda mais a divulgação desta freguesia.
Não poderemos esquecer o contributo que a página alvalade.info, deu ao longo dos anos à Vila de Alvalade, levando mais longe o nosso nome e as nossas realidades.
Afirmo, e este comentário é feito pessoalmente, como alvaladense, que dois factores contribuiram de forma relevante para que Alvalade fosse uma localidade mais conhecida, não só no País, como no estrangeiro - Por um lado as comemorações anuais do Foral Manuelino. Por outro lado a existência do www.alvalade.info , que transmitiu a todos os interessados nesta Vila alentejana, toda a sua história, bem como os mais variados temas informativos.
Lamento e lamento igualmente que, a maioria de outras páginas sobre
Alvalade ou instituições, não reconheçam publicamente o valôr e a importância deste meio informativo local, que pelos vistos vai desaparecer.
PESSOALMENTE - Lamento!
Lms