segunda-feira, 17 de março de 2014
terça-feira, 27 de agosto de 2013
NOS 70 ANOS DA CASA do POVO de ALVALADE - 1943-2013
A minha vida e a Casa do Povo (1)
Quando no inicio da década de 60, com os meus 12 anos de idade, visitei na
companhia do meu protetor – lavrador da herdade dos Almargens, o edifício da
sede da Casa do Povo de Alvalade, então em construção, estava longe de pensar
que parte da minha vida futura estaria ligada a esta instituição. De facto, a
partir daí comecei a nutrir pela mesma, uma ligação que se viria a fomentar
mais intensa, quando em 1976, ingressei no quadro de pessoal da Casa do Povo de
Alvalade. Vivia-se nesses tempos forte movimentação resultante do regime
instaurado em 25 de Abril de 1974. As Casas do povo, foram criadas por Salazar
e após a revolução eram vistas com grande desconfiança e animosidade. Muitos
dos seus dirigentes haviam sido afastados, uns por ligação ao regime
ditatorial, outros acusados disso, embora em muitos dos casos tal não se
verificasse. Mas a onda saneadora não poupava ninguém, dirigentes e até
trabalhadores. Foi assim que muitas se viram sem funcionários e como tal houve
que admitir novos trabalhadores. Encontrava-me então a exercer atividade
profissional no Arsenal do Alfeite, em Almada, quando pessoa amiga me informou
da existência de concurso para novos funcionários da Casa do Povo. Inscrevi-me,
na então Junta Central das Casas do Povo e fui presente a concurso de admissão
ao lugar de escriturário. As provas foram efetuadas no próprio edifício da
instituição e, de entre vários concorrentes fiquei classificado em primeiro
lugar, tendo iniciado as atividades em Dezembro de 1976, com vinte e oito anos
de idade. Como atrás referi, ser funcionário da instituição, nesses tempos,
constituía uma aventura e uma grande incerteza. Mas, lá consegui singrar .
Nessa altura a vida da Casa do povo, resumia-se ao serviço de secretaria, no
âmbito de regime especial de previdência dos trabalhadores rurais. Atividades socioculturais
também. Com a minha juventude, rapidamente me embrenhei na vida associativa. Após
algum tempo, foi criado o Grupo de Acão Cultural, constituído por alguns
jovens Alvaladenses, que desenvolviam atividades culturais e recreativas.
Lembro-me que uma das primeiras iniciativas foi
a realização de um concerto musical, com a Banda da Força Aérea. Devido
à recente revolução dos cravos as forças armadas granjeavam o carinho e a
admiração das populações, pelo que este facto constituiu um enorme êxito.
Curiosamente a grandeza da banda obrigou a que o pequeno palco do salão de
festas fosse prolongado até metade da sala, para poder acomodar todos os
executantes. Refiro este facto, como uma das primeiras, senão a primeira atividade
cultural realizada após a minha admissão na instituição. O que não quer dizer
que a seguir ao 25 de Abril de 1974, Alvalade não tivesse assistido a outras
realizações de grande valor. Recordo ainda a primeira festa do trabalhador realizada
no então “quintal da Rosarinha” como lhe chamávamos e cujo primeiro
impulsionador, foi o saudoso Domingos de
Carvalho.
O Grupo de Acão Cultural, iniciou pois a sua atividade na Casa do Povo,
organizando um grupo de teatro , cujo primeiro trabalho foi a representação da
peça de Alfonso Sartre “A morte no bairro”.
Mais tarde, sob a influência do então pároco padre José Martins Salgueiro,
os jovens Alvaladenses começaram a granjear interesse pela história de Alvalade
e foi por iniciativa daquele padre que um grupo de jovens entre os quais me
incluía, se deslocaram a Lisboa, à Torre do Tombo, a fim de observarem o original do Foral de
Alvalade. E, pode afirmar-se que, graças ao clérigo que nos acompanhava, tivemos
nas nossas mãos o secular LIVRO dos
FORAIS NOVOS, que se encontrava
guardado na casa forte daquele arquivo histórico. Grandes momentos, hoje infelizmente
desvalorizados, mas que confirmam a existência em Alvalade ao longo dos últimos
anos de pessoas empenhadas no estudo e pesquisa da nossa realidade histórica.
E, posso afirmar que a todas estas atividades esteve sempre ligada a Casa do Povo
de Alvalade.
(continua)
domingo, 12 de fevereiro de 2012
A MINHA ENTRADA NO MUNDO DO TRABALHO - 2
Em certa altura passei a acompanhar na minha condição de
aprendiz, um operário chamado Moreira, que era natural de Montes Juntos –
Alandroal, mas que há anos vivia no Laranjeiro, aos navios da marinha de guerra.
Para quem não conhece
o Arsenal do Alfeite, são os estaleiros navais que dão apoio na manutenção dos
navios da nossa armada. O Moreira ia varias vezes ao navios ancorados, para
proceder a reparações, muitas vezes relacionadas com as bombas de agua.
Agradou-me e jamais esquecerei as “visitas” que ambos fazíamos a bordo do navio
– escola Sagres.
Mais tarde, fui transferido para uma outra secção onde
aperfeiçoei os meus conhecimentos, embora mantendo a categoria profissional de
operário. Tratava-se da Secção de Normalização e Classificação de Materiais. Aí
desenhavam-se peças que depois seriam fabricadas nas oficinas, estudavam-se as
NEP ( normas portuguesas). Era um trabalho mais aliciante, longe do ruído da
maquinaria e naturalmente mais higiénico. Lembro-me que a secção era chefiada
por um engenheiro cujo nome não recordo e por um funcionário administrativo
cujo nome era Costa. O Costa era um amigo e camarada, e através dele me iniciei
na vida político-partidária . Primeiramente no MDP/CDE e depois quando este
Movimento passou a partido politico, inscrevi-me no Partido Comunista
Português durante algum tempo. O Costa estava sempre disponível para transmitir-me os ensinamentos
de que necessitava. Estudava à noite em Lisboa, na Faculdade de Economia E,
ficou-me gravado o dia em que pela manhã no inicio da jornada diária de
trabalho, o Costa entrou na secção, depois de ter realizado as provas de exame na Faculdade, que lhe
concederam a licenciatura naquela área.
Na secção éramos cerca de dez funcionários e nessa manhã,
perfilados logo que o Costa entrou dissemos em uníssono:
- Bom dia senhor Doutor!
E o Costa respondeu de forma agressiva, nada satisfeito com o
título académico a que tinha direito:
- Senhor Doutor o c….
Era assim o grande companheiro e ao mesmo tempo bom camarada -
o Costa!
Foi ele quem politicamente me instruiu, quem projectou mais
longe os meus escassos conhecimentos da realidade que do mundo actual, onde uns
têm tudo e outros quase nada! A minha eterna gratidão ao grande amigo e
companheiro de ideologia, o Costa!
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
A MINHA ENTRADA NO MUNDO DO TRABALHO - 1
Quando terminei o curso industrial, ou mais concretamente o
curso de formação de electromecânico, no principio dos anos 60, na Escola
Industrial e Comercial de Beja, rumei para Almada, onde por intermédio de um
familiar que já partiu, ingressei no Arsenal do Alfeite, como aprendiz de
serralheiro mecânico.
Nunca concordei com a situação de “aprendiz”, dado que no curso
industrial, tal como nos demais cursos ministrados nas antigas Escolas
Técnicas, a aprendizagem era exemplar. Nas oficinas colocadas à disposição dos
“aprendizes” nada faltava para que se formassem bons profissionais. E, depois
de três anos de curso, custa um pouco ingressar no mundo do trabalho com a
profissão de “aprendiz” . E se pensarmos que esta categoria era distribuída por
aprendiz de 3ª, aprendiz de 2ª e aprendiz de 1ª, maior será a nossa repulsa.
Pois fui admitido como aprendiz de 3ª classe, com o
vencimento mensal de 802$00. Tinha na ocasião 17 anos de idade. Outra
particularidade que em muito ajudava os jovens aprendizes, é que, com um
horário das 8 horas às 15 horas, quando os demais operários iam até às 17
horas. A razão consistia no facto dos jovens estudarem reunindo assim
conhecimentos teóricos que aliados aos conhecimentos práticos faziam deles, na
generalidade bons profissionais.
No meu caso, saía como tal às 15 horas, e percorria o caminho
que me levava do Portão da Romeiras, passando pela Cova da Piedade e subindo
depois até, Almada, à urbanização
sobranceira à Lisnave onde residiam os meus familiares que me acolheram em sua
casa. Teria pois o tempo suficiente para estudar, preparando-me para, após o
jantar, iniciar as aulas na então Escola Industrial e Comercial Emídio Navarro,
até às 23 horas.
Ingressei pois naquele estabelecimento de ensino, no 1º ano
da Secção Preparatória ao Instituto Indusdrial.Aí permaneci até a minha ida para o serviço militar
obrigatório. Entretanto porque os meus familiares decidiram adquirir casa própria, passei a residir,
primeiramente, junto ao monte do Cristo Rei e mais tarde em dois quartos
alugados, perto desse local.
No Arsenal, onde fui como frisei admitido como aprendiz de
serralheiro mecânico, na oficia de ferramentas, tive o primeiro contacto com o
mundo do trabalho um tanto ou quanto penoso para mim. Como serralheiro mecânico
passava todo o horário de trabalho, numa bancada, na frente de um torno, onde
se reparava de tudo o que fosse ferramentas de trabalho. A oficina não era
grande, mas dava trabalho a cerca de 30 operários, chefiados por dois
“mestres”, cijos nomes se a memória não me falha eram Campos e Manuel ? que
conhecíamos por “nini”. Eram boas pessoas, embora contactassem com os operários
apenas o necessário. De resto permaneciam num gabinete, de dentro do qual,
através de uma vidraça seguiam toda a vida da oficina.
Já não consigo recordar-me dos meus colegas de trabalho. Mas
lembro-me que na minha frente na bancada, um operário de idade avançada, se
entretinha a falar comigo, sobre os mais variados aspectos. Devido a isso,
muitas vezes tanto um como o outro eram chamados à razão pois com a conversa
esquecíamos o trabalho.
Na oficina, muitos dos trabalhadores viam em mim, o filho de
um qualquer agrário alentejano. Embora constantemente os informasse que
provinha de trabalhadores agrícolas, quase não acreditavam, pois eles sabiam
que as classes rurais tinham dificuldades em darem estudos aos filhos.
Atrevo-me até, a afirmar, que por vezes e a principio devem ter pensado que
teria ali sido colocado, para ouvir as suas conversas e comentários nada
favoráveis ao regime. Levou muito tempo até se convencerem de que tal não
correspondia à verdade. Tive e conheci ali grandes amigos. Provavelmente poucos
serão vivos.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
A propósito
de JOSÉ RAPOSO NOBRE
Isto de escrever as
nossas memórias, por vezes não é tarefa fácil. Se a principio assim parece,
depois as ideias vão-se dissipando e a muito custo, vem ao de cima.
Mas por vezes basta que
alguém recorde factos passados para imediatamente se fazer luz e as recordações
virem ao de cima.
Isto a propósito do
artigo colocado mo “Alvalade.info” administrado pelo conterrâneo e amigo Luís
Pedro Ramos, a propósito do grande homem
que durante a vida contribuiu e continua a contribuir com o seu esforço
e trabalho, para o desenvolvimento de Alvalade. Refiro-me ao José Raposo Nobre,
grande amigo, que tive o grato prazer de acompanhar na vida pública, quase logo
a seguir ao 25 de Abril. Anteriormente a esta data libertadora, recordo igualmente
o José Nobre, principalmente na sua actividade de empregado de comercio, no
estabelecimento comercial dos Sr Inácio Cabrita Cortes, um dos mais importantes
da Vila de Alvalade, situado onde hoje se encontra o café “ O Sitio Certo”.
Mas depois de procurar
factos passados, dou por mim a recordar o nosso José Raposo Nobre, na sua
condição de autarca. Lembro-me que as reuniões da Câmara eram à sexta-feira e
eu, jovem de vinte e alguns anos, desenvolvia actividade na força politica onde
militava e continuo a militar – o PCP, embora nesses tempos numa forma de
grande actividade. Pertencia então à Comissão Concelhia e as reuniões deste
órgão eram igualmente à sexta-feira. Assim, eu aproveitava a “boleia” do José
Nobre e chegados a Santiago ele entrava na Câmara e eu ia para a “prisão”. E
quando digo isto espero que o admitam como brincadeira, mas a Sede do PCP nessa
altura era no antigo estabelecimento prisional de Santiago do Cacém, já na
altura desactivado e hoje albergando um dos melhores museus concelhios
nacionais.
Ambos íamos para
reuniões que em lados opostos da Praça do Município, terminavam madrugada fora.
E, numa das ocasiões, não sei bem porque motivo, o Sr. Nobre, talvez com o
cérebro saturado dos enormes problemas autárquicos com que se debatia a Câmara
Municipal, ou então por ver as portas e janelas da antiga prisão fechadas, deduziu
que a minha reunião já teria terminado e eu já tivesse regressado (não haviam
telemóveis), veio para Alvalade, deixando-me em Santiago.
Valeu-me então, a boa
vontade do jovem amigo José Pereira, de
São Bartolomeu da Serra, hoje Director Financeiro da Câmara Municipal de
Santiago do Cacém, que me veio trazer a Alvalade, na sua viatura.
Esta uma das muitas
peripécias que preencheram a minha vida de jovem, como a de tantos outros que
se empenharam com a força da sua juventude para que fossem criadas melhores
condições de vida para as populações . Só que nesta, tive a felicidade de a
viver na companhia dum grande Homem, que ainda hoje comigo colabora na vida
institucional. Que seja por muitos anos, bom amigo José Raposo Nobre.
domingo, 15 de janeiro de 2012
AS NOSSAS TRADIÇÕES -As Janeiras - Os contratos de Páscoa
Já aqui mencionei uma
das tradições que muito me marcaram na infância – o cante das janeiras . Hoje em Alvalade e anualmente por
minha iniciativa e com a participação dos meus queridos utentes do Centro de
Dia, alguns já com muitas dificuldades de mobilidade, sai um grupo à rua
entoando não as janeiras, mas sim os Reis. A melodia de um e outro cante é
idêntica, apenas é alterada a letra.
O meu desejo e daqui
faço um apelo aos que se dedicam inteiramente à educação das crianças, sejam os
pais e familiares. sejam os professores, para que incentivem os vossos educandos a que
participem nestas actividades tradicionais. Se tal acontecesse não se perderiam
estes valores, porque a tradição é a memória dum povo e cabe-nos a todos contribuir com o nosso
empenho para que muitas das tradições não se extingam por completo. Continuo a
pensar que a escola seria de certeza o melhor percurso da vida para que estas
memórias continuassem a existir.Vejamos as actividades que felizmente algumas escolas promovem e que tem este fim. Lembremo-nos do Carnaval, com os cortejos trapalhões que se realizam um pouco por todo o lado. Um tanto abasileirado, não sendo difícil incluir quadros tradicionais portugueses nestas iniciativas. Cito como exemplo a Dança de Carnaval, ou como também lhe chamam a Dança das fitas. O Centro de Dia de Alvalade realizou esta actividade durante alguns anos, mas dado que a sua execução é extremamente difícil para pessoas com idade avançada, certamente os jovens conseguiriam ( e estamos certos) com agrado, ensaiarem e apresentarem esta tradição carnavalesca.
Na Páscoa, tenho sempre presente os Contratos de Páscoa. E não tenho dúvidas de que os nossos jovens sensibilizados muito gostariam de participar em mais esta tradição.
Os “Contratos de Páscoa”
é uma das tradições alvaladenses, de que se fala, mas que
infelizmente deixou de existir. Se houvesse possibilidade de sensibilizar os
nossos jovens para o retomar desta tradição, seria importante. Mas não só os
nossos jovens. As pessoas adultas poderão igualmente participar neste tipo de
iniciativa, que certamente daria nova motivação à população, neste momento
absorvida pelas dificuldades que nos são impostas e que tendem a contribuir
para que se fique parado no tempo sem expectativas nem anseios.
O contrato era efectuado entre duas pessoas e em jogo estava
um pacote de amêndoas ( antigamente as amêndoas eram vendidas a peso ).
No momento do Contrato os dois contraentes, davam as mãos direitas dizendo:
“ Contrato, Contrato, Contrato fazemos – No dia de Páscoa oferecemos”.
Estava então celebrado o contrato verbal.
No dia de Páscoa, os dois contraentes tentavam encontrar-se.
Corriam as ruas, escondiam-se . O primeiro que avistasse o outro, dizia-lhe –
“Oferece e Reza”E estavam ganhas as amêndoas, combinadas no dia da efectivação do Contrato.
Tornava-se interessante, ver pessoas, jovens e adultas, praticarem um autêntico jogo do “esconde e aparece”.
Seria muito interessante , que, na próxima Páscoa esta nossa tradição fosse relembrada e praticada. Porque não?
domingo, 15 de maio de 2011
PASSADO RECENTE- A Minha Pergrinação a pé a Fatima-2003--2
A MINHA PEREGRINAÇÃO A FÁTIMA, A PÉ (2)
DE S.MARTINHO DE CASEBRES ATÉ CANHA
DE CANHA ATÉ CORUCHE
DE CORUCHE A ALMEIRIM
DE ALMEIRIM À GOLEGÃ
(continua)
DE S.MARTINHO DE CASEBRES ATÉ CANHA
Seguiu então o grupo de peregrinos, de S. Martinho de Casebres, até Canha, passando por Vendas Novas. Cabe aqui referir que a peregrinação estava bem organizada. Carros de apoio, entre os quais uma carrinha da Casa do Povo de Alvalade, conduzida pelo dirigente Arnaldo Borges. De tantos em tantos quilómetros, pessoal da equipa de apoio, aguardava-nos com agua e distribuição de rebuçados.
Alguns quilómetros percorridos, a nossa companheira Regina Borges, foi acometida de um problema que também a mim, dias mais tarde me havia de acontecer. Estava previsto, a organização havia-nos dito, que durante a caminhada poderíamos ser afectados psicologicamente. E foi o que se passou com a Gina, que não parava de chorar, sem que alguém soubesse a razão de tal facto. Parámos, em determinada altura, para descanso e comermos algumas peças de fruta. Aí, todos nós, demos uma ajuda à Gina, a ponto de, começar a animar-se e no arranque, de novo na estrada, a nossa companheira lá seguiu ainda com maior ânimo, levando consigo o estandarte da peregrinação.
De acrescentar, que durante a caminhada, havia tempo para tudo. Tempo para rezar, tempo para reflectir, no mais completo silêncio, quando se ouviam apenas o bater dos bordões no alcatrão da estrada, tempo para cantar e até para contar anedotas. Em cada paragem, os peregrinos massajavam as pernas com cremes apropriados, descansavam um pouco e depois um tanto ultrapassado o cansaço, lá seguiam para nova jornada.
Atravessámos Vendas Novas e aí, veio-me à memória os tempos que ali passei, no serviço militar. Ali ingressei em 1970, antes de ser mobilizado para a Guiné. A seu tempo relatarei também esses tempos que fazem parte das minhas memórias.
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| Vista da cidade de Vendas Novas |
Depois de Vendas Novas, já ao fim do dia aproximava-nos completamente estafados e com os pés já enfeitados de algumas bolhas, do nosso destino – a Vila de Canha.
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| Quartel dos Bombeiros V. de Canha |
Aí chegados dirigimo-nos ao quartel dos Bombeiros Voluntários, que nos apoiaram, no alojamento. Após o tão desejado banho, dirigimo-nos às instalações da santa Casa da Misericórdia que nos forneceu um reconfortante jantar. Regressados ao quartel , fomos surpreendidos pela presença de um grupo de bombeiros que voluntariamente se dispôs a dar-nos massagens que em muito ajudaram o grupo a prosseguir no dia seguinte.
E, o dia seguinte, igualmente pelas seis horas da manhã, tudo a postos para mais uma etapa e esta bastante longa. Iríamos continuar pelo Ribatejo, de Canha até Coruche, aonde iríamos pernoitar, na Santa Casa da Misericórdia.
E a melhor forma de iniciarmos esta caminhada, foi com muita devoção, enquanto andávamos rezámos o terço. Cada qual pensou nesse momento nos seus problemas, sendo que uma das formas de os ultrapassar residia precisamente nesta devoção, nesta oração, nos cânticos que se faziam ouvir no silêncio dos campos, interrompido apenas com a passagem de viaturas, que nos saudavam com o som estridente dos veículos,
Durante o percurso, fizemos uma paragem debaixo das arvores e foi celebrada a Eucaristia, pelo padre Silveira. Depois, mais animados e confortados, o grupo seguiu a caminho de Coruche. E foi a alguns quilómetros, que também eu, fui acometido de uma crise psicológica, relacionada talvez com a saudade dos familiares, que felizmente ultrapassei e me deu forças para continuar.
E eis-nos chegados a Coruche mais propriamente às instalações da Santa Casa da Misericórdia, situadas numa antiga quinta na várzea fronteira a Coruche.
A Mesa da Misericórdia, havia-nos proporcionado alojamento, num sótão, onde tinham sido espalhados colchões. Um verdadeiro hotel para os caminhantes que nessa altura acusavam já algum cansaço. Após a chegada, realizou-se uma Missa na capela, celebrada por um cónego cujo nome já não recordo. Seguiu-se um jantar servido no refeitório da instituição, após o que recolhemos aos “aposentos” que nos tinham sido reservados.
No dia seguinte, o 9º da caminhada, teríamos de percorrer o caminho de Coruche até Almeirim. Ao nascer do sol o grupo de peregrinos , saiu das instalações da Misericórdia, depois de uma oração conjunta onde agradecemos e desejámos as bênçãos de Deus e de N. S. de Fátima para quem tão bem nos havia recebido – a Santa Casa da Misericórdia de Coruche. Atravessámos a linda Coruche, subindo a encosta até Santo Antonino e daí em direcção a Almeirim, passando por diversas localidades cujos habitantes nos recebiam com muito carinho. De realçar que foi durante este percurso, que avistámos um simbolo, que nos transmitiu uma força interior extraordinária e que nos deu ânimo redobrado - num cruzamento de estradas, uma placa indicava FATIMA. Verdadeira alegria.
À chegada a Almeirim, um incidente marcou a nossa viagem. Um dos nossos companheiros, sentiu-se mal e tivemos de chamar uma ambulância que o transportou ao hospital. Regressou mais tarde restabelecido, mas, creio que não teve condições de saúde para caminhar, tendo feito o percurso num dos carros de apoio. Aqui, ficámos hospedados na Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Almeirim, que igualmente se esmerou na recepção aos peregrinos de Fátima.
DE ALMEIRIM À GOLEGÃ
Dia seguinte, percurso de Almeirim à Golegã, novamente os momentos de oração, de recolhimento, mas também os habituais momentos de alegria partilhada das mais diversas formas. A passagem pelo dique dos vinte foi inesquecível, embora um tanto perigosa, pois a estrada era estreita e as bermas por onde caminhávamos exigia redobrados cuidados. Também na Golegã foi a Santa Casa da Misericórdia quem nos acolheu. Aqui tivemos o grato prazer de ter à nossa espera, o alvaladense José dos Reis com sua família, que de uma certa forma ajudaram a mitigar as já intensas saudades dos familiares. No dia seguinte esperava-nos a etapa até Torres Novas, penúltima até atingirmos o nosso objectivo – o Santuário de Fátima.
(continua)
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